Como um girassol

Um feriado incômodo
O dia de finados sempre me fora indiferente até o dia em que perdi meu irmão. Mas além da dor dilacerante que senti – e ainda sinto – tento identificar as mudanças de pensamento/comportamento ocorridas em mim depois dessa tragédia. Observo que houve uma inversão significativa em minha
lista de prioridades: até o fim da graduação, meu “sonho” seguia essa ordem: graduação, mestrado, doutorado, concurso público. 

Ironicamente, perdi meu irmão pouco antes da aprovação no mestrado e, no momento do resultado, o meu sentimento era: o que devo comemorar? É como se a vida me provocasse: fizestes tantos planos medíocres e agora quero ver-te festejar.
Desde então, tudo que se refere ao acadêmico/profissional tem me servido para ocupar a cabeça e desviar meu pensamento do evento REALMENTE IMPORTANTE da minha vida.
Hoje, meu sonho é ser mãe e meu objetivo reside em viver em harmonia, respeitar o próximo e dormir em paz, afinal, quem garante que este não será o meu último dia ou o seu? Doutorado, concurso público passaram a ser consequência de uma vida bem vivida.
Por outro lado, confesso que é preciso bastante sabedoria para ignorar certas barbaridades do dia a dia. Ouvir alguém lhe atacar, atingir, ofender, sem que você tenha dado motivo para isso e não reagir é um esforço quase sobrenatural... E como falam as maiores futilidades: criticam seu cabelo, sua roupa, seu comportamento - antes criticarem sua aparência que sua essência, né? ;) - como se essas “pequenices” fossem os tópicos mais importantes da vida. Talvez até sejam, mas para essas pessoas também pequenas. E, mesmo sabendo como atingir “em cheio” determinada pessoa, deixo pra lá, afinal, que tipo de ser humano seria se ofendesse um pobre de espírito? É mais ou menos como pisar em quem já está no chão, não é mesmo?
Mil vezes NÃO, prefiro a ausência da arrogância nos meus contatos diários, o contentamento de um idoso ao tratá-lo com gentileza, o sorriso de uma criança ao contar-lhe a mesma história mil vezes, a satisfação de um analfabeto ao respeitá-lo pelo ser humano que ele é.
E da minha reflexão sobre “os ganhos de humanização" decorrentes da minha perda e da sabedoria dos anos vividos, tento seguir a lógica do girassol: meu movimento é em busca de luz, me alimento dela.   
Laura Dourado Loula