Sim, eu terei meus próprios filhos!


Dezembro de 2010: depois de uma noite em claro sentindo dor, pedi a minha mãe que me levasse ao médico.
Como sempre fora saudável, imaginei que não seria nada demais. Torpe engano!
Já no hospital, Dr. Danilo Loula, radiologista competentíssimo, primo e amigo desde sempre, julgou por bem realizar exames de imagem. Na ultrassonografia abdominal foi detectado um enorme mioma e, segundo Dan, o caso era cirúrgico e urgente. Procurei chão debaixo dos meus pés. Fiquei estarrecida. Desolada, chorei ainda na porta do hospital sem desconfiar que o meu pesadelo só começava. Em meio ao diagnóstico, Dan me alertou que além do mioma, havia um cisto ovariano, este sim, bastante preocupante. Novos exames: de laboratório, raio x, ultrassons, até parar na sala de ressonância magnética.
De Irecê direto para Salvador, para o consultório de Dra. Dorileide Loula Novaes de Paula, tia, ginecologista, obstetra e referência não apenas pela excelência profissional como também pela atuação no Conselho Regional de Medicina.  Meu anseio era que tia Leide dissesse que Dan se enganara, algo praticamente impossível. Muito pelo contrário, tamanho foi o susto de minha tia quando realizou o preventivo. Mais uma vez ouvi o prognóstico: é caso cirúrgico e urgente! Novos exames, dentre eles, o indicador tumoral CA 125...e lá se foi a minha paz. A sigla "CA" era autoexplicativa, dispensava esclarecimentos: havia uma suspeita considerável de tumor maligno em meu útero.
Dias depois eu me encontrava no consultório do médico cirurgião Dr. Paulo Rios e novamente eu ouvi: é caso cirúrgico e urgente. O agravante, desta vez, ficou por conta do pragmatismo de um médico "nada familiar". Com todas a letras ele anunciou: - durante a cirurgia, faremos uma biopsia de congelamento, se confirmada a malignidade, vou retirar TUDO. - TUDO, como assim TUDO, o que era esse TUDO? Útero, trompas e ovário? Exatamente! Como se já não bastasse a suspeita de um tumor maligno, eu poderia perder a chance de ser mãe, de realizar o sonho de minha vida.
A essa altura eu era apenas uma caricatura de mulher. Meus sentidos faltaram e eu me arrastei até o carro. Feliz daquele que tem família...durante toda minha desventura, "os meus" foram minhas pernas, braços, muletas e cadeira de rodas, quando não podia sequer andar. 
Os dias intermináveis custavam a passar e, uma vez digerida a possibilidade de histerectomia, comecei a cogitar a coleta e armazenamento de óvulos, afim de garantir, pelo menos, uma barriga de aluguel no futuro. Iniciei, de imediato, uma corrida contra o tempo. O procedimento requereria tempo e muita grana. Quanto a este último, nenhum problema: minha família garantiu a venda da casa de Irecê e eu facilmente venderia meu carro. Na minha cabeça, o maior entrave seria o fator tempo. Liguei desesperadamente para as clínicas especializadas, mas o mês era "janeiro", as clínicas tinham aproveitado para dar férias coletivas aos funcionários e a minha angústia só aumentava até que Dra. Ana Paula e depois tia Leide me comunicaram que pela posição do mioma o procedimento seria inviável, ou seja: agora eu era apenas uma sombra.
Entrei para o quarto e chorei. Minha mãe e Daniela logo vieram me fortalecer questionando a minha fé. Pedi a elas que me concedesse o direito de, na condição de ser humano, sentir verdadeiramente a minha dor e chorar por 10 minutos, just it.
Com o passar dos dias, aceitei a inviabilidade da coleta e as orações me puseram de pé. Foram inúmeras, de amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos.
Somado a isso, o apoio incondicional de Marcus transformou o fardo pesado num obstáculo superável. Ao ouví-lo dizer que, independente do resultado, seríamos felizes pelo simples fato de estarmos juntos, senti meu coração retornar ao meu corpo.
E foi com essa leveza que cheguei ao Hospital São Rafael para a cirurgia, nos braços do Pai. Minha última lembrança antes da cirurgia foi o olhar doce de tia Leide e o beijinho carinhoso de Dr. Paulo Rios na testa.           
Do pesadelo que durou quase 2 meses o meu Deus me transferiu direto para o sonho, o sonho real de gerar os meus próprios filhos!        
Laura Dourado Loula                           
                             
"Sei que teus olhos, sempre atentos permanecem em mim
E os teus ouvidos estão sensíveis para ouvir meu clamor.
Posso até chorar, mas a alegria vem de manhã
És Deus de perto, e não de longe.
Nunca mudastes, tu és fiel.

Deus de aliança. Deus de promessas. Deus que não é homem para mentir.
Tudo pode passar, tudo pode mudar, mas tua palavra vai se cumprir."