Que saudade do português "bem dizidu"!

Outro dia, enquanto Marcus e eu esperávamos na fila do Subway, ouvi um funcionário perguntar a um dos clientes se ele gostaria de vegetaus em seu sandwich. Uma das moças que estava à nossa frente, em tom de deboche, repetiu o vegetaus para a colega e elas riram. 
Meu incorrigível senso se justiça logo protestou: será que essa moça jamais cometeu um erro de português? será que ela nunca escreveu quiser com "z" (quizer), ansioso com "c" (ancioso), compreensão com "ç" (compreenção), infelizmente com "s" (infelismente), ou o já quase dicionarizado de tão popular mim add ao invés de me add?; será que o atendente teve a mesma oportunidade de estudar nas melhores escolas particulares, como provavelmente aconteceu a essa moça? É quase certo que não. Afinal, entre eles há o balcão dos vegetaus que os separa(empregado/cliente), a materialização dos muros simbólicos.
Aceito a crítica, o deboche e a chacota desde que seu autor tenha respaldo para fazê-los. Já vi muita gente-que-abomina-erros-de-português cometer erros gritantes do bom e velho idioma. Irônico, né? Isso sim, é artefato para boas risadas.
Não estou aqui defendendo a aceitação dos erros crassos de português. Muito pelo contrário, acho um absurdo a precariedade do ensino de leitura e escrita no país. Recentemente, numa prova internacional que avaliou a capacidade de leitura de estudantes com 15 anos, o Brasil obteve o 53º lugar, em uma lista de 65 países. Enquanto linguista, é com muito pesar que constato a leitura e a escrita na contramão dos avanços científicos e tecnológicos.
Cotidianamente, assassinam o português onde não se deveria: nobres programas de tv, sites de internet, revistas e jornais. Ah, os jornais! A impressão que eu tenho é que não existe um revisor sequer nos jornais. 
No documentário sobre a ditadura militar "Canção do Exílio", Caetano Veloso pondera: "A Sandy é uma cantora, do ponto de vista técnico, perfeita. Eu peço, pelo menos, que aquele cara que escreve na Folha ou o outro que escreve no Globo, redija a frase corretamente, é o mínimo. Que seja pelo menos, como a Sandy é afinada, que ele saiba pelo menos escrever. O negócio sai mal escrito, você vai ler tá errado o Português. A ideia é primária, o português tá errado e ele vai falar mal da Sandy? Não dá!"
Realmente não dá! Sendo ele jornalista, estudou, no mínimo, 20 anos de sua vida; a linguagem é seu instrumento de trabalho e ele não conhece as regras básicas de gramática?    
Diferente disso é o balconista que diz vegetaus, acredito que seu erro se justifique muito mais pela deplorável formação educacional que recebeu, ou pela total ausência desta, do que por um descuido ou opção pessoal.
Na dúvida de uma prepotência injusta, sendo eu também passível de erros, prefiro não debochar.


"Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz" Fernando Anitelli  


Laura Dourado Loula